Gravidez
Risco de gravidez conforme o dia do ciclo: o que a evidência sustenta de facto
A janela fértil de seis dias, as duas únicas probabilidades por dia realmente publicadas, porque é que os dias intermédios ficam em branco de propósito, e a armadilha de confundir uma taxa de falha anual com o risco de um encontro.
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Risco de Gravidez
A janela fértil é mais curta do que quase toda a gente pensa
O estudo clássico sobre isto é o de Wilcox e colaboradores no New England Journal of Medicine em 1995: 221 mulheres, 625 ciclos, com a ovulação datada por medições hormonais diárias e não por estimativa. O resultado foi categórico. A conceção ocorreu apenas quando a relação sexual caiu dentro de uma janela de seis dias que termina no dia da ovulação. Nenhuma gravidez resultou de relações posteriores a esse dia.
A janela é assimétrica, e essa assimetria é biológica. Os espermatozoides podem sobreviver vários dias no trato reprodutivo à espera de um óvulo; o óvulo, por seu lado, é viável menos de um dia. É por isso que os dias férteis estão antes da ovulação e não depois.
As duas probabilidades realmente publicadas
Dia −5
10%
Cinco dias antes da ovulação: o início da janela.
Dia 0
33%
O próprio dia da ovulação: o valor publicado mais alto.
Porque é que os dias do meio ficam em branco
Wilcox publicou estimativas pontuais para o dia −5 e o dia 0. Os dias intermédios (−4 a −1) não constam como números em nenhuma fonte que tenhamos conseguido consultar. Traçar uma curva suave entre os dois extremos ficaria convincente e seria inventar dados, por isso esses dias aparecem como uma faixa em vez de uma percentagem falsa.
Reanálises posteriores do mesmo conjunto de dados colocam o pico um ou dois dias antes da ovulação e não no próprio dia. Não conseguimos aceder ao texto integral, pelo que isso influencia apenas a forma como o resultado é redigido e nunca produz um número.
Porque é que o dia do ciclo é uma estimativa e não uma medição
Tudo o que ficou dito depende de saber quando ocorreu a ovulação. Fora de um estudo, ninguém sabe. O habitual é trabalhar para trás a partir da fase lútea, o intervalo entre a ovulação e a menstruação seguinte, que é bastante mais estável do que a primeira metade do ciclo.
- A fase lútea dura cerca de 14 dias na maioria das pessoas e varia pouco entre ciclos.
- A fase folicular — da menstruação até à ovulação — é a parte que se alonga e encurta. É isso que torna um ciclo «irregular».
- Por isso a ovulação estima-se cerca de 14 dias antes da PRÓXIMA menstruação, e não 14 dias depois da anterior.
- Uma doença, uma viagem, o stress ou dormir mal podem deslocar a ovulação num ciclo concreto, e com ela desloca-se toda a janela.
A armadilha: as taxas anuais não são o risco de um encontro
A eficácia contracetiva é publicada como taxa de falha do primeiro ano em uso típico: em cada 100 pessoas que usam o método durante um ano, quantas engravidam. Já inclui todos os deslizes reais: a pílula esquecida, o preservativo colocado tarde. Não é, nem pode converter-se, na probabilidade de que um encontro concreto resulte em gravidez.
Falha em uso típico durante o primeiro ano
Implante e DIU
< 1%
Não há nada para lembrar, por isso o uso típico e o perfeito quase coincidem.
Injetável
4%
Depende de regressar a tempo para a dose seguinte.
Pílula, adesivo, anel
7%
A diferença face ao uso perfeito são quase só as doses esquecidas.
Preservativo masculino
13%
Sensível ao uso correto e consistente em todas as ocasiões.
Coito interrompido
14-27%
Os intervalos publicados variam muito entre estudos.
Métodos de conhecimento da fertilidade
2-34%
A amplitude reflete métodos muito diferentes e níveis de formação muito diferentes.
Nunca multiplique uma coisa pela outra
Combinar uma probabilidade de um dia concreto com uma taxa de falha anual produz um número sem significado. Medem coisas diferentes em prazos diferentes. Leia-as lado a lado, não como um único valor.
O que isto não cobre
- Não diz nada sobre contraceção de emergência, que depende do tempo: se é essa a pergunta, a resposta é uma farmácia ou um médico hoje, não uma calculadora.
- Não tem em conta a fertilidade individual. A idade, as doenças e as cirurgias anteriores alteram a probabilidade real e nenhuma delas entra aqui.
- Não protege contra infeções sexualmente transmissíveis, algo que nenhum cálculo de ciclo aborda.
- Não pode confirmar nem excluir uma gravidez já existente. Só um teste o faz, e apenas passado tempo suficiente.
Uma estimativa, não um método contracetivo
Usar o momento do ciclo para evitar uma gravidez é uma abordagem reconhecida, mas exige formação e registo diário constante para se aproximar do extremo inferior do seu intervalo. Uma estimativa pontual não é isso e não deve servir de contraceção.
Fontes consultadas
- Wilcox AJ, Weinberg CR, Baird DD (1995). Timing of sexual intercourse in relation to ovulation. N Engl J Med 333(23):1517-1521.
- Wilcox AJ, Dunson D, Baird DD (2000). The timing of the "fertile window" in the menstrual cycle: day specific estimates from a prospective study. BMJ 321(7271):1259-1262.
- Guttmacher Institute (2020). Contraceptive Effectiveness in the United States, a partir de Hatcher RA et al., Contraceptive Technology, 21.ª ed.


